A
criação de cooperativas informais é ação
comum em instituições de ensino do Noroeste do Estado
do Rio Grande do Sul. A Cooperativa de Eletrificação
e Desenvolvimento da Fronteira Noroeste (Cooperluz), de Santa
Rosa, realiza há 15 anos atividades de educação
cooperativista com alunos de 7ª e 8ª séries,
de 13 a 16 anos. Neste ano, 800 estudantes de 10 municípios
da Região integram o Programa de Cooperativismo nas Escolas
(PCE). Dos 19 colégios participantes, 16 são da
zona rural.
As
ações do PCE incluem viagens de estudos e atividades
práticas. "Cooperativismo é trabalho em equipe,
é comprometimento", diz o coordenador do projeto,
Delmar Rempel. As aulas teóricas e viagens envolvem as
7ª séries. Com as 8ª séries, é
enfocada a formação de uma cooperativa informal,
com produção, comercialização e gestão
realizadas pelos alunos. Já foram criadas cooperativas
de hortaliça, artesanato, doces e sucos. O professor Antônio
Andrioli, da Unijuí, que já coordenou o projeto,
destaca as mudanças no comportamento dos alunos. As secretarias
municipais de Educação e Cultura e a Emater apóiam
as atividades.

Jornal
Correio do Povo: Como surgiu a idéia de trabalhar
o cooperativismo nas escolas?
Antônio
Andrioli: O PCE, como experiência de cooperação
inserida nas escolas, surgiu no contexto da discussão de
novas alternativas de cooperação e desenvolvimento
para a região Fronteira Noroeste do Estrado do Rio Grande
do Sul. Após a realização do II Encontro
Regional da Pequena Propriedade, realizado em Santo Cristo em
1993, várias entidades apontavam para a necessidade de
se constituir um programa de educação cooperativa
inserido em escolas. O cooperativismo, o associativismo e o sindicalismo,
juntos, passaram a propor mudanças na educação
e colocaram à disposição das escolas um instrumento
que permitia a reflexão sobre as formas de organização
existentes e a necessidade de reconstruir as suas estruturas com
uma maior participação dos associados.
CP:
De quem foi a idéia?
AA:
A proposta inicial do PCE foi construída, basicamente,
a partir de maio de 1993, após várias reuniões
entre duas cooperativas da região, a COOPERLUZ e a COTRIROSA,
que defendiam a criação de um Programa de Associativismo,
Cooperativismo e Sindicalismo nas Escolas. O entendimento sobre
o papel do cooperativismo no desenvolvimento da região
e a defesa incisiva da agricultura familiar, através da
expressão “pequenos agricultores”, muito usada
na época, foi alvo de conflitos e o PCE só iniciou
com a firme adesão da COOPERLUZ e o apoio da COTRIROSA.
As outras cooperativas, mesmo não se colocando numa posição
contrária, resistiram e não aderiram à proposta
em seu início, ingressando somente a partir do segundo
e do terceiro ano de atividades. A partir de 2005 o PCE pode ser
caracterizado como trabalho conjunto de diversas entidades da
região preocupadas com a formação de lideranças
e a construção de uma consciência cooperativa
e associativa com alunos em escolas.
CP:
Oque faz com que o projeto permaneça após
15 anos de atividades?
AA:
São basicamente 5 fatores: 1) a firme disposição
da COOPERLUZ em colocar uma estrutura de coordenação,
assessoria, financiamento e divulgação à
disposição do projeto, desde o seu início;
2) a ampla integração das entidades da região
com o programa; 3) a estrutura descentralizada de coordenação
em cada município e em cada escola; 4) a grande motivação
e o profundo comprometimento de professores e alunos com o projeto,
reelaborado e renovado a cada ano com base em sistematizações
e avaliações; 5) a proposta do programa, baseada
em experiências práticas de cooperação.
Através de cooperativas escolares, os alunos produzem,
industrializam e comercializam produtos, gerando resultados econômicos
que são distribuídos entre eles. Ao mesmo tempo,
constroem estruturas de participação política,
pois, como associados, trabalham e decidem sobre o processo produtivo,
geram e resolvem conflitos, planejam e organizam o trabalho, dividem
tarefas, aprendem e vivenciam a democracia e a solidariedade.
Fonte:
Jornal Correio do Povo 30/08/2008