As eleições de 22 de setembro demonstraram claramente que a Alemanha não está isolada da “onda conservadora” que ronda a Europa.  A reeleição de Gerhard Schröder para chanceler e a manutenção no poder da coalisão formada por SPD (Partido Social-democrata Alemão) e Partido Verde gerou a sensação de que “o pior foi evitado”, tendo em vista a derrota do bloco conservador CDU/CSU (União Democrática Cristã e União Social Cristã) somado ao fato do FDP (Partido Liberal) ter ficado abaixo das suas projeções o que, concretamente, impediu uma possível vitória de Edmund Stoiber, candidato a chanceler de uma esperada coalisão CDU/CSU e FDP. Entretanto, é necessário ter um pouco mais de cuidado ao analisar o atual quadro político alemão.

Em primeiro lugar,  o grande dilema desde o início da campanha eleitoral era diferenciar Schröder de Stoiber. As privatizações, isenções de impostos a grandes empresas e o gradativo desmonte do Estado de bem-estar social são políticas em execução no governo de “centro-esquerda” liderado por Schröder, traindo as expectativas de todos aqueles que, em 1998, viam neste governo a alternativa de mudança diante dos 16 anos de Helmut Kohl (CDU). Em outras palavras, a prometida mudança não aconteceu e o que se temia dos conservadores foi realizado pelos social-democratas, contando com o aval do Partido Verde que, após ingressar no governo, foi ruindo seu antigo programa a tal ponto que chegou a apoiar a participação alemã na guerra do Kosovo e Afeganistão, atentando contra um de seus valores mais caros: o pacifismo. Como possíveis diferenças em relação aos conservadores resta a instituição da união civil de homossexuais, a lei de imigração, maior investimento em programas de auxílio a crianças, gradativa redução de usinas nucleares e o apoio à agricultura ecológica. O desemprego, principal tema do debate político, não obteve nem com a aliança CDU/CSU nem com a SPD/Partido Verde alguma proposta efetiva de enfrentamento. Se os 4,5 milhões de desempregados no governo Kohl, em 1998, foram um dos principais motivos da sua derrota, o governo Schröder que, naquela época, prometeu uma redução para, no mínimo, 3,5 milhões, alegando que em caso de descumprimento não mereceria ser reeleito, chegou ao seu final com 4,1 milhões de desempregados. Neste quadro político confuso, restaram algumas medidas demagógicas das quais Schröder conseguiu tirar proveito na fase final da campanha eleitoral: 1) as promessas de ajuda aos atingidos pelas enchentes no leste do país (exatamente onde o índice de desemprego é maior); 2) a adoção de um discurso pacifista se posicionando contrariamente à intervenção militar no Iraque. Contando com um quadro desfavorável, as ferramentas usadas surtiram efeito a ponto de evitar um maior crescimento de CDU/CSU, que chegou a apresentar as restrições a estrangeiros como alternativa de redução do desemprego, numa tentativa de ampliar sua votação com os extremistas de direita. Mas, a pergunta continua valendo: qual é, de fato, a diferença entre Schröder e Stoiber e, com a reeleição de Schröder, o que muda na Alemanha?

Em segundo lugar é importante levar em conta que a vitória de Schröder só foi alcançada por uma estreita diferença de mandatos de deputados eleitos diretamente. As eleições parlamentares na Alemanha prevêem dois votos na mesma cédula de votação: uma para o candidato a deputado em seu distrito eleitoral e outro para o partido. Os votos no partido contabilizam o número de deputados que cada partido terá no Parlamento. Os votos em candidatos expressam os deputados de preferência dos eleitores que vencem em cada distrito eleitoral. Assim, os deputados que vencem as eleições em seu distrito de votação já são automaticamente eleitos, os chamados mandatos diretos. Quando o número de mandatos diretos ultrapassa os votos do partido, o partido acaba ganhando mais deputados. O conjunto dos deputados eleitos, por sua vez, elege o chanceler, o que abre o espaço para as coligações. O SPD alcançou mais deputados do que votos no partido e elegeu 251 deputados que, somados aos 55 do Partido Verde, garantem uma pequena maioria em favor de Schröder no total de 603 deputados. Schröder foi eleito com 57% da população se afirmando insatisfeita com seu governo. O crescimento de 3,4% de CDU/CSU e a redução de 2,4% do SPD em relação a 1998, demonstram que o SPD vem reduzindo sua capacidade eleitoral, tendo sido salvo pelo desempenho de seu candidato a chanceler, os mandatos diretos e  o crescimento do Partido Verde que, especialmente, com a enchente e a sensibilidade com relação ao meio ambiente, soube aproveitar um espaço deixado em aberto pelos demais partidos.

Em terceiro lugar, cabe registrar que a Alemanha já não possui mais oposição de esquerda no Parlamento. O PDS (Partido do Socialismo Democrático) que, até então, era o único partido claramente identificado de esquerda, conseguiu eleger apenas 2 deputados e, com apenas 4% dos votos, deixa de existir como bancada. Com a polarização entre SPD e CDU, a descaracterização do PDS nos governos em aliança com o SPD e a renúncia de seu principal líder, Gregor Gysi, no período que antecedeu a campanha, o PDS é, na verdade, o grande derrotado destas eleições, perdendo parte de seus votos para o SPD e outra para os que deixaram de votar.

A tendência é de ampliação do mesmismo, com a continuidade da implementação das políticas neoliberais e a emergência do populismo como instrumento de construção da hegemonia. Frente à reeleição deste governo que já demonstrou seu descompromisso com a mudança, resta uma oposição conservadora, configurando uma conjuntura de retrocesso político e acomodação, onde a crítica é gradativamente suplantada pelo temor diante do perigo maior, o perigo de ascencao de um suposto conservadorismo que, concretamente, já está instaurado.

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Artigo publicado na Revista Espaço Acadêmico. Outubro de 2002

http://www.espacoacademico.com.br/017/17andrioli.htm

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