A sombra do nazismo no Velho Mundo PDF Imprimir E-mail
Atualidades
Sáb, 25 de Agosto de 2007 21:00

JBNas últimas semanas, acontecimentos que chocaram o mundo trouxeram à tona o terror que tem raízes na Segunda Guerra. - Idéias como o nazismo não morrem na sociedade e no mundo - avalia o estudioso do tema Antônio Andrioli, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Osnabrück, na Alemanha. - Elas aumentam e diminuem, mas nunca somem.

 

 


 Fonte: Jornal do Brasil
Editoria: Internacional
26 de agosto de 2007

MARSÍLEA GOMBATA

 

Como uma assombração, o nazismo não abandonou a Europa. No auge do intercâmbio entre povos, graças à globalização, manifestações neonazistas voltam a ganhar fôlego e crescer de forma assustadora.

Nas últimas semanas, acontecimentos que chocaram o mundo trouxeram à tona o terror que tem raízes na Segunda Guerra. Na Alemanha, semana passada, neonazistas marcharam por ocasião dos 20 anos da morte do líder nazista Rudolf Hess - braço direito de Adolf Hitler - e oito indianos foram espancados por 50 skinheads neonazistas numa festa popular. Na Dinamarca, a polícia condenou, domingo passado, o líder neonazista Johnni Hansen a 10 dias de prisão por homenagens a Hess. Na Rússia, há 12 dias, foi divulgado na internet um vídeo em que um homem é decapitado e outro é morto a tiros com a suástica ao fundo.

- Idéias como o nazismo não morrem na sociedade e no mundo - avalia o estudioso do tema Antônio Andrioli, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Osnabrück, na Alemanha. - Elas aumentam e diminuem, mas nunca somem.

No neonazismo atual, os jovens são maioria. Mas os neonazistas, adverte Andrioli, estão em todos os setores da sociedade. Organizados politicamente - como o Partido Nacional Democrático (NPD) - ou não, clamam pelo nacionalismo e pedem que a pátria seja para os que nela nasceram. Como Hitler, neonazistas pedem uma "Alemanha para alemães" e a "Rússia para os russos".

Entre janeiro e julho, na Rússia, estima-se que 310 pessoas tenham sido vítimas de ataques racistas - 22% a mais do que o mesmo período no ano passado. Em partes da ex-Alemanha Oriental, 1/3 dos jovens votaram no NPD - que é proibido de se declarar nazista - nas eleições regionais passadas.

Depois dos recentes ataques neonazistas, Wolfgang Tiefensee, ministro do Desenvolvimento Urbano da Alemanha, declarou que "não serão tolerados slogans que lembrem a Segunda Guerra".

Os princípios neonazistas que se assemelham aos ideias nazistas - como limpeza étnica e a busca pela raça pura ariana, assim como o ódio por judeus (que se traduz na negação do Holocausto) - distanciam-se da época de Hitler por não terem um projeto de construção nacional político e educacional.

- A principal diferença entre o nazismo atual e o antigo está na política - observa Alexander Verkhovsky, diretor do Sova, centro ativista contra a xenofobia na Rússia. - Antes, lutavam pela construção de uma pátria, mas os grupos hoje são desprovidos de projetos políticos e só propagam preconceito.

Reed Brody, advogado do Human Rights Watch na Bélgica, atenta para a relação entre desenvolvimento interno, política doméstica e o crescimento do neonazismo.

- A opinião pública é muito influenciada por temas como imigração, asilo, economia - critica. - O desemprego e a falta de perspectivas alimentam o neonazismo e a luta contra imigrantes.

Os contextos mais prováveis para o ascensão do neonazismo, segundo Brody, são lugares em que "democracia, política e economia não caminham bem". Assim, encontra-se um bode expiatório para ser culpado por problemas sociais que "são, no fundo, responsabilidade de cada um".

- A relação entre neonazismo e desenvolvimento doméstico é uma desculpa e não justifica essa postura agressiva - opina Agustín Romero, professor de Política Externa, da Universidade de Buenos Aires.

Assim como na época de Hitler, as questões econômicas influenciam diretamente na xenofobia. Andrioli acredita que "as regiões que têm menos acesso ao desenvolvimento e investimentos do Estados têm maior tendência ao nazismo".

- Não é à toa que na parte oriental da Alemanha, onde há mais subdesenvolvimento, esses grupos culpam estrangeiros pelo desemprego - conclui.

Ao declararem que o Holocausto não foi tão grave, grupos neonazistas abusam de uma simbologia estética que vai além da suástica. Coturnos pretos com cadarços brancos, roupas pretas com metais e cabeça raspada são marcas de xenófobos que se colocam contra comunistas e etnias como a asiática.

Mais de 60 anos depois da libertação dos últimos sobreviventes de Auschwitz, o passado nazista não está superado. O tema ainda surge como um tabu na sociedade européia e se estende a outros continentes.

http://jbonline.terra.com.br/editorias/internacional/papel/2007/08/26/internacional20070826007.html

 


 Nacionalismo, fanatismo, cultura e estética no Brasil


 
Antonio AndrioliO próprio projeto da União Européia, que teoricamente deveria enfraquecer a xeonofobia, parece fortalecer o neonazismo. Pesquisas apontam que a insegurança social - contexto para a propagação do ideiais nazistas - atinge 60% dos alemães. O racismo é um fenômeno antigo que permanece no Velho Continente: mais da metade dos alemães acreditam que há muitos estrangeiros no país e afirmam que, em caso de carência de empregos, os forasteiros deveriam voltar a suas nações de origem.

Para Rachel Denber, vice-diretora da Divisão da Europa e Ásia Central do Human Rights Watch, os governos também "têm sua parcela de culpa pelo crescimento das manifestações nazistas atuais e não fazem o bastante para combater o movimento, pois não o incluem na lista de prioridades".

- A ideologia nazista é um mal político e não um distúrbio psiquiátrico - avalia Antônio Andrioli. - É um totalitarismo aliado à lavagem cerebral e elevado ao nível de fanatismo religioso, no momento em que utopias estão em crise e há um vácuo para figuras messiânicas.

Enquanto autoridades se armam contra o neonazismo - como o fato de a polícia investigar Peter Voigt, líder do NPD, por ter proposto o prêmio Nobel da Paz a Rudolf Hess - a tendência é, para Agustín Romero, "exercícios democráticos avançarem e o neonazismo não ocupar posições sociais importantes".

Com expressão em todos os continentes, o movimento neonazista na América Latina é confuso e têm inspirações diversas. Paradoxalmente, os neonazistas brasileiros lutam por uma limpeza étnica impossível de ser feita num país formado por misturas de etnia como europeus, asiáticos, africanos e indígenas.

O movimento neonazista no Brasil, além de discriminar judeus, age principalmente contra trabalhadores nordestinos em cidades como São Paulo e Porto Alegre.

A confusão entre o punk dos anos 80 e os carecas (ou skinheads e boneheads - inicialmente um movimento estético e de estilo de vida) marca o movimento xenófobo de extrema direita aqui. Gangues do subúrbio - como o ABC paulista e a zona Leste de São Paulo - tinham um discurso que valorizava a moral católica e uniram-se ao movimento dos cabeças raspadas, de caráter nacionalista. O grupo levanta bandeiras nacionalistas e prega valores conservadores como a moralização da sociedade.

Em 2000, cerca de 20 carecas do ABC espancaram até a morte o adestrador de cães homossexual Edson da Silva, quando este passeava de mãos dadas com o namorado no Centro de São Paulo.

Depois do episódio, grupos neonazistas enviaram uma carta a autoridades paulistanas em que diziam:

"Vamos destruir todos os veados, pretos e nordestinos (...), todos que defendem essas sub-raças vão se arrepender (...). Salve a raça superior. Nós, os skinheads".

http://jbonline.terra.com.br/editorias/internacional/papel/2007/08/26/internacional20070826001.html