“Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais democratas, eu calei, porque, afinal, eu não era social democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles levaram a mim, não havia mais quem protestasse” (Martin Niemöller).
Todas as vezes em que ocorre um massacre humano, uma crueldade que choca a humanidade, como o holocausto nazista, as ditaduras militares, os atentados em Nova Iorque e em Madrid, o terrorismo do governo norte-americano no Iraque e no Afeganistão e, recentemente, o genocídio na Rússia, é comum vermos na imprensa os familiares das vítimas se perguntando desesperadamente: “porque mataram logo quem não tinha nada a ver com isso?”. Por outro lado, nós, expectadores, somos tentados a agir com uma brutal indiferença que parece se justificar na resposta: “eu não tenho nada a ver com isso!”. Tanto a pergunta como a resposta não são novas e remetem a um problema maior de nosso tempo: a extrema falta de solidariedade entre os seres humanos. Diante de um fato social, a pergunta que podemos nos fazer é “até que ponto eu não tenho nada a ver com isso?”
Na Alemanha foram realizados muitos estudos críticos acerca da passividade do povo alemão com relação ao nazismo. Há um consenso de que Hitler não contou com a maioria da população para colocar em curso suas atrocidades, mas contou com a passividade, com a indiferença e a apatia da maioria, que permitiu o gradativo avanço da barbárie contra judeus, negros, homossexuais, ciganos, sindicalistas, comunistas e sociais democratas. A predisposição de aceitar uma injustiça cometida a outro; a centralização extrema em torno de interesses pessoais ou, no máximo, quando pertinentes ao grupo familiar; o cultivo da ordem e da disciplina como valores morais fundamentais; e o sentimento de bem-estar quando isolado socialmente, são sintomas de que a indiferença e a carência de solidariedade continuam muito presentes na atual sociedade alemã. No entanto, se o confronto com atitudes egoístas extremadas continua a chocar muitos estrangeiros neste país, a Alemanha não mantém exclusividade neste comportamento. Considerando que se trata de um dos países capitalistas mais desenvolvidos do mundo, o comportamento da maioria do povo alemão é similar ao dos demais, se deixarmos de lado as diferenças culturais localmente determinadas. Tratam-se de valores que reproduzem a lógica de uma sociedade cercada de abundância, centrada na satisfação individual, na concentração de riquezas geradas por outros, na competição desenfreada por status social, no consumo como válvula de escape do tédio cotidiano e na avaliação subjetiva de independência da necessidade do contato social.
A generalização de um comportamento de ausência de qualquer responsabilidade com os fatos sociais não deveria gerar espanto, se verificarmos que ele é o que boa parte da humanidade almeja como padrão de felicidade para si. O que nos deveria chocar é que, sendo essa análise correta, estamos caracterizando um comportamento que tende a se generalizar com o avanço do capitalismo, ou seja, se nos países do chamado Terceiro Mundo a miséria material está aumentando progressivamente para a maioria da população, o “Primeiro Mundo” passa a se confrontar cada vez mais com uma espécie de “miséria psíquica” de seu povo, motivada, em boa parte, pela sua atitude consciente de isolamento e de apatia social. Psiquiatras denominam essa atitude de fobia social, um fenômeno que, por exemplo, na Alemanha, atinge cerca de 9% da população. Os sintomas detectados nessas pessoas, segundo os pesquisadores, vão desde a aceleração cardíaca até crises de tremedeira causados por excessivo stress em situações de contato direto com outras pessoas, como telefonemas, apresentação diante de estranhos e, especialmente, quando há a sensação de insegurança pelo fato de estarem sendo observadas. Como alternativas de fuga do problema aparecem, principalmente, o isolamento social, o fumo e a bebida alcoólica.
A solidariedade, fenômeno característico de grupos humanos que se vêem confrontados com necessidades comuns, passa a ser cada vez mais rara em sociedades de farta abundância material. As condições objetivas de geração desta riqueza material estão assentadas na objetivação do ser humano, onde o trabalho, transformado em mercadoria, assume uma forma abstrata, impedindo as relações diretas entre os sujeitos. As pessoas se encontram por intermédio das mercadorias e em função da lógica que permite aumentar seu acesso. Assim, mesmo os encontros informais de pessoas tendem a estar permeados de intenções e de interesses que reproduzem uma estrutura social objetivadora dos seres humanos, que apresenta o individualismo exacerbado como possibilidade de conquista da liberdade individual. Como resultado, temos um crescente processo de alienação e estranhamento humanos, fundamentado e subjetivamente justificado na conquista de um maior bem estar individual a todo custo. Como afirma Ricardo Antunes, “o capitalismo dos nossos dias, ao mesmo tempo que, com o avanço tecnológico, potencializou as capacidades humanas, fez emergir crescentemente o fenômeno social do estranhamento, na medida em que este desenvolvimento das capacidades humanas não produziu necessariamente o desenvolvimento de uma subjetividade cheia de sentido, mas, ao contrário, ‘pode desfigurar, aviltar etc… a personalidade humana’, pode também ‘nesse processo sacrificar os indivíduos (e até mesmo classes inteiras)”.
No que se refere aos atentados, guerras e seqüestros, onde pessoas inocentes são vitimadas, tratam-se de momentos em que seres humanos são explicitamente usados como objeto para atingir interesses econômicos e/ou políticos. Essa é, aliás, a forma que todo tipo de violência assume na sociedade: o momento em que pessoas são transformadas em objeto com vistas à satisfação de interesses de outros. Esse fenômeno social acontece de forma rotineira, muitas vezes despercebida ou inconsciente, pois já integra a lógica cotidiana da maioria das relações sociais. Somente quando a violência conduz a conseqüências extremas, como a morte, é que muitas pessoas se dão conta de sua existência, sendo os inúmeros momentos de submissão a que os seres humanos vêm sendo submetidos diariamente, no trabalho, na própria família, na relação com os demais, afastados desta caracterização. Assim, fatos como o desemprego, que atinge 1/3 da população mundial, cujas pessoas estão com sua perspectiva de vida submetida à boa vontade dos empregadores; a fome que mata 25 mil pessoas diariamente, das quais 11 mil são crianças; e a violência contra as mulheres que, mesmo na Europa, atinge 4 milhões de vítimas, parecem não sensibilizar a população.
A violência é cotidiana, mas parece que somente com o sensacionalismo da imprensa ela se torna tema de debate. Numa sociedade dividida em classes, a injustiça já está decretada desde o seu princípio, que estabelece a propriedade dos meios de produção, concentrada nas mãos de cada vez menos pessoas. A violência atual, como representação da submissão de uns em relação a outros, é parte integrante da estrutura da organização social capitalista, no momento em que esta se baseia na submissão do trabalho assalariado. A desigualdade e a injustiça, frutos decorrentes desta violência original, só podem vir a gerar reações de violência por parte dos grupos dominados. A barbárie se generaliza e, para manter a estrutura em funcionamento, a classe dominante recorre novamente à violência, sempre que necessário for, para manter seus privilégios de propriedade, acumulação de riquezas e poder político.
Se as formas de violência que a maioria da população presencia, através da mídia, devem ser condenadas, não podemos esquecer que os atentados, as guerras e os seqüestros, não são acontecimentos que surgem do nada, como sendo a origem da violência. O que geralmente não aparece nos noticiários é que há um contexto, uma história anterior a um acontecimento. Se o assunto é terrorismo, precisamos identificar seus motivos, causas e objetivos. Ao procedermos assim, não podemos deixar de identificar o terrorismo contemporâneo com a lógica imperialista da sociedade em que vivemos, como bem caracterizaram Paulo Cézar Tiellet e Paulo Denisar Fraga em artigo publicado nesta revista, mostrando que o terrorismo é o filho bastardo do imperialismo: “Os milhões de vítimas do capitalismo tornam inaceitável que o terrorismo seja criticado unilateralmente, sem que se faça, do mesmo modo, uma crítica às responsabilidades do imperialismo norte-americano. Quem duvidar dessa tese terá a chance de se convencer quando acontecerem as retaliações”.
É impossível combater a violência na sua raiz (de forma radical, portanto) sem confrontar as estruturas sobre as quais se baseia a sociedade capitalista. Seres humanos que passam a depender de grupos armados para sobreviver, seja servindo às máfias ou aos exércitos, são, ao mesmo tempo, agressores como vítimas de uma estrutura social que os submete a defender uma causa, arriscando sua própria vida, para receber em troca uma chance de sobreviver num mundo em que a barbárie se torna a regra da socialização e mina a possibilidade de existência de uma efetiva solidariedade entre as pessoas. Da mesma forma, as vítimas e seus familiares que reagem violentamente na tentativa de fazer justiça, incorporam um método que aprofunda a violência e deixa cada vez mais claro que, diante da desumanização, restam poucos caminhos de fuga aos que ainda se consideram inocentes. A solidariedade, que parece ainda existir nestes momentos, é logo sufocada pelo ódio que sucede à criminalização. Se quisermos, de fato, entender porque determinadas tragédias humanas acontecem, ao invés de nos perguntarmos como é possível que pessoas cometam certas atrocidades, é mais importante refletirmos sobre o tipo de sociedade que produz certas atitudes e pessoas. Pois, se continuarmos a pensar que nada temos “a ver com isso”, certamente muitos continuarão “pagando por isso”.
Revista Espaço Acadêmico – Nº41 – Outubro de 2004 – issn 1519.6186